Episódio 2: Ana-Mosquito e o Sr. Rodrigues


Era alvorecer...

Ao se levantar e perceber que estava como humana e não como mosquito, Ana pensou como tinha ido parar em sua tenda. Será que aquela história de ser mosquito realmente aconteceu? Será que não foi um sonho? Ela ficou pensativa ainda sentada em seu colchão, mas logo seu olfato sentiu o cheiro das frutas que estavam bem ali dispostas numa bandeja com flores decorativas. “Hummm que delícia!! Estou faminta!!” Enquanto comia as frutas e sentia o gosto peculiar de cada uma delas, Ana se lembrou da sensação do sangue que bebeu da mão de Sitara, de como tinha gostado, como se tivesse comido um hambúrguer bem suculento. “Nossa, se foi um sonho, foi bem real!”

Depois que comeu as frutas, Ana se levantou e foi então que percebeu que seu vestido estava diferente, parecia ter mais flores amarelas. “Será que isso significava alguma coisa?” Louca para encontrar uma das irmãs ou mesmo Sitara, Ana saiu correndo em direção à fonte, e como se pudesse voar ficou brincando com o vento até que ouviu uma vozinha estranha falar:

_ Hummm! Gostou de ser “mosquita”, hein Ana?!!

_ Bom dia, Flor do Centro!!! Então, não foi um sonho?

_ Mas você não está num sonho?

_ Não brinque comigo! Você entendeu minha pergunta.

_ Não foi um sonho dentro desse sonho, se assim você quer saber – riu Flor do Centro – Hoje vamos receber um convidado peregrino. E como não podemos ter dois humanos ao mesmo tempo em Bafalândia, você continuará seu treinamento como mosquitana.

_ Como assim? Não quero ser mosquito, já aprendi a lição!

_ Será mesmo? Talvez fosse bom reforçar mais um pouco.

_ Eu vou esperar Sitara e discutir isso com ela, não com você! (Ana estava já meio rabugenta).

_ Sinto lhe dizer que ela me autorizou a transformá-la num mosquito. Sitara está no portal recebendo nosso convidado, o sr. Rodrigues.

_ Nem pensar, não se atreva!!!

E antes mesmo de Ana continuar a falar, Flor do Centro girou a mão e estalou os dedos como Sitara fazia e Ana virou um mosquito.

_ Znhiiinnnn (Ana falou um palavrão)

_ Até daqui a pouco mosquitana!

_ Znhiiinnnn (Ana falou outro palavrão)

Mosquitana saiu voando tentando encontrar Sitara. “Onde será esse portal? Algo me diz que ela estará lá na tenda.” Então, Ana se dirigiu até lá, se lembrava direitinho do caminho, apesar de tê-lo encontrado “meio que por acaso” no dia anterior. 

Depois de um tempo...

“Ali está!! Achei. Znhiiinnnn”. Ao se aproximar, mosquitana viu que Sitara estava conversando com um senhor de meia-idade. Então, ela pousou perto deles para tentar escutar a conversa. Já que era um mosquito podia fazer o que queria. Contudo, seu sentido de mosquito começou a ficar meio embriagado, pois já estava com “fome de sangue”. Mosquitana, então, percebeu que o braço do senhor Rodrigues era muito branquinho, dava até para ver algumas veias sanguíneas. “Que lindas essas veias!! Znhiiinnnn” Mosquitana não resistiu e foi direto no braço do senhor Rodrigues dar uma picadinha. De repente, ela sentiu um estralo e caiu no chão... Znhiiinnnnnnn...

_ Sitara, me desculpe!! Foi automático! Nossa!! Como estou constrangido! Não esperava que um mosquito me picasse logo agora! Estava tão compenetrado em nossa conversa, que não pensei. Será que matei o bichinho?

Senhor Rodrigues se abaixou e começou a falar com mosquitana:

_ Me desculpe pequeno ser!! Eu já fui mosquito como você! Sei como é ruim essa sensação. Por favor, me perdoe!

Sitara se abaixou também e olhou para mosquitana dizendo:

_ É nossa menina Ana! Não se preocupe, ela não está morta, apenas um pouco amassadinha. Deixa-me dar um jeito nisso.

Então, Sitara recitou um mantra em voz baixa e assoprou em cima de mosquitana que subitamente acordou com uma sensação estranha, mas ainda sem conseguir voar. Logo surgiram Flor do Leste e Flor do Sul carregando uma maca minúscula para mosquitos (como será que elas sabiam?).

_Vamos levá-la para que possa se restabelecer, Sr. Rodrigues! Não se preocupe, ela vai ficar bem! – disse Flor do Leste.

As irmãs colocaram mosquitana na maca e a carregaram para sua tenda. Enquanto isso, senhor Rodrigues continuou com Sitara, queria aproveitar o tempo, antes de acordar no outro mundo.

_ Como estava dizendo Sitara, minha vida mudou muito depois daquela temporada aqui. Não bebo mais, nenhuma gota de álcool. Já faz seis meses. Você me disse que ia demorar um pouco para eu voltar aqui e hoje entendo o porquê. Eu precisava ver que conseguia por mim mesmo e precisava perceber também a força de Bafalândia me acompanhando. Não sei se foi coisa da minha cabeça, mas em alguns momentos quando queria fraquejar, uma libélula aparecia do nada e vinha em minha direção. Eu sou muito grato por isso! 

_ Que bom, Rodrigues, que você nos percebeu, pois na verdade não há separação alguma entre nós.

_ Agora que estou lúcido, finalmente estou fazendo o luto pela perda de Andressa e das crianças. Só agora depois de dois anos que eles se foram.

_ Tudo tem o seu tempo, querido amigo. Você se refugiou na bebida, precisou disso para não enlouquecer. As coisas não precisam ser vistas como tão fixas e rígidas, porque as coisas em si não são fixas e nem rígidas. 

_ Sim, hoje percebo isso. Tive que aprender a me acolher nesses últimos seis meses, a me dar colo. E aprendi a pedir colo também. Hoje estou mais próximo de minha família e amigos. Mas ainda não superei a culpa. Eu sei que não faz sentido. Não foi culpa minha. Andressa estava acostumada a dirigir para a Serra sozinha.

_ A culpa, então, é por não ter ido com eles, Rodrigues? Por estar vivo?

_ Sim, Sitara, é por estar vivo e eles não – Sr. Rodrigues fez uma pausa - O que posso fazer para lidar com isso?

_ Que tal encontrar Mamo de novo?

_ Da última vez foi aterrorizante, mas fez com que eu parasse de beber.

_ Sim, encarar seus próprios demônios não é uma tarefa fácil. Mas no final da experiência o “demônio da bebida” se dissolveu, não foi?

_ Sitara, o tempo que estou aqui é o intervalo de meu sono na Terra, certo? Mas como bem vivenciei da última vez, o tempo aqui em Bafalândia ocorre de maneira totalmente diferente. Eu me lembro de ter passado aqui um mês e na Terra foi apenas algumas horas.

_ Sim. E aonde você quer chegar para responder a minha pergunta?

Sr. Rodrigues riu.

_ Não estou enrolando. Eu sei que você está com uma peregrina aqui.

_ Sim, nossa menina, a Ana.

_ Sei que dois peregrinos não podem se encontrar em Bafalândia.

_ De preferência não – Sitara deu uma risadinha.

_ É, eu sei, aqui há regras, mas ao mesmo tempo não há – Sr. Rodrigues riu.

_ Bafalândia foi feita para os animais, seres da natureza e seus protetores. Não apenas para regatá-los de situações de sofrimento que passaram na Terra, mas também para treiná-los. E dentro desse treinamento, é que optamos por deixar que alguns peregrinos fossem treinados aqui também.

_ Sim, eu me lembro. Mas você ainda não me disse por que fui escolhido para vir para cá. Qual seria minha missão, se posso dizer assim.

_ Sua missão é treinar a estabilidade da sua mente por meio da meditação para que a compaixão surja naturalmente. Depois, tudo pode acontecer. Mas vamos voltar ao ponto, à pergunta que eu lhe fiz.

_ Sim, não estou enrolando, como disse. Apenas gostaria de saber se posso ficar mais tempo aqui, apesar de estar no meu intervalo de sono na Terra. Talvez pudesse ficar num outro lugar fazendo alguma prática antes de encarar Mamo de novo.

_ Ah! Chegamos ao ponto. Sim, é possível. Mas você terá que ficar nas montanhas. Vou falar com os protetores de lá. Há uma casinha de retiros. Você pode ficar lá meditando. E além da meditação, pode fazer uma reflexão sobre a impermanência de todas as coisas. Inclusive da culpa que você carrega. Hoje ela está aí, mas porque tudo é impermanente, ela pode ir embora.

_ Certo. Vou pensar sobre isso. E quando estiver pronto mando um sinal?

_ Sim, mas não espere por mim, Mamo irá ao seu encontro.

_ Tudo bem!!

_ Então, vamos lá?

Sr. Rodrigues acenou com a cabeça. Por um lado estava feliz em ir para as montanhas e ter como companhia os protetores de lá. Estava precisando ficar isolado mesmo. E estava feliz de Sitara ter concordado dele ficar mais tempo. Ele ficava fascinado como o tempo podia ser mais curto ou mais longo em Bafalândia em relação ao tempo da Terra. Enquanto seguia Sitara, se lembrou dela dizer que o tempo era relativo, depois que era uma ilusão, mas ainda não compreendia totalmente. Contudo, ele estava disposto a fazer o caminho da compreensão. E principalmente, o caminho para dentro de si mesmo que possibilita essa compreensão.

Sr. Rodrigues e Sitara atravessaram a Floresta Leste em direção à Floresta Sul. No caminho, os animais vinham vê-los, mas ele sabia que não era por causa dele, mas sim por causa dela. Parecia que cada passo que ela dava tocava toda a terra de Bafalândia, parecia que sua presença penetrava tudo e a todos. Sr. Rodrigues se sentia protegido e profundamente amado na presença dela. Apesar do encontro com Mamo ter sido fundamental na primeira temporada em que esteve ali, pois Mamo era como Sitara, os dias que passou com ela, com toda a extensão de Bafalândia e sua energia, foi restauradora. Ele sabia agora o que era o amor. E ele queria ser esse amor.

De repente, um esquilo atravessou o caminho deles segurando em suas mãos uma flor. Fez uns barulhinhos e estendeu suas patinhas.



_ Obrigada, meu querido amigo! – disse Sitara.

Sitara pegou a flor, ofereceu um carinho ao esquilo e seguiu com o sr. Rodrigues para o campo de flores do campo sul, para enfim poderem chegar nas montanhas da direção sul.

Depois da travessia, eles chegaram na base de uma das montanhas.

_ Espere aqui Rodrigues!

_ Tudo bem! – sr. Rodrigues se sentou numa rocha.

Depois de uns dez minutos, Sitara voltou. Em suas mãos tinha um colar de ouro com um pingente na forma de árvore, que tinha no meio do tronco o desenho de uma libélula com pedras azuis claras, como o céu.




_ Isso é para você usar quando voltar para a Terra. Mas já pode coloca o colar agora, pois ele também é uma permissão para você ficar nas montanhas. Vou te levar até a casa de retiros que fica logo ali em cima. 

Sr. Rodrigues colocou o colar e seguiu Sitara. Era uma caminhada de uns quinze minutos para cima da montanha. Quando chegaram na casa de retiros, ele ficou maravilhado. Era uma casinha simples, bem pequena, rodeada por uma montanha na sua parte traseira, e com uma vista de toda Bafalândia na sua parte frontal. A porta de entrada ficava na lateral, bem no meio.

_ Obrigada Sitara!!

_ Na casa tem tudo que você precisa. E os protetores das montanhas trarão suas refeições. Mas não espere vê-los, como vê as Irmãs Terra.

_ Sim, eu sei. Mas eu já vi uma vez, quem saber eles não dão a graça? Minhas refeições serão frutas?

_ Não. Aqui como é mais frio, você terá refeições mais quentes. O cardápio muda de acordo com o humor deles – Sitara riu.

_ Você gosta de brincar que não tem o controle por aqui, não é?

_ E o que é ter controle, Rodrigues, quando tudo acontece de forma natural? Não vê os lírios do campo? Eles não tecem e nem fiam (5). Boa meditação e contemplação, querido amigo! Quando estiver contemplando sobre a impermanência, coloque todos os fenômenos na extensão de sua analise, ok?!

Sr. Rodrigues assentiu com a cabeça enquanto Sitara sorriu e se afastou, descendo a montanha. Ele, então, resolveu conhecer sua moradia temporária. Ao entrar na casa, a porta dava para um pequeno rol com duas entradas separadas por uma parede de madeira: a da esquerda dava para um pequeno quarto com uma cama de solteiro, uma lareira, uma mesa; a da direita dava para uma salinha de meditação que tinha um tapete no chão, uma almofada e uma mesinha pequena e curta. Essa sala tinha uma janela de vidro bem grande que dava para a vista de Bafalândia.

Já era fim do dia, então sr. Rodrigues resolveu sair da casa e apreciar o por do sol, aproveitando para contemplar um pouco sobre a impermanência. Passado uns minutos, ele sentiu cheiro de comida. Ao entrar na casa de retiros, viu uma bandeja em cima da mesa do quarto com um prato de sopa de abóbora, uma caneca de chá e um pedaço generoso de pão integral com azeite. “Humm! Eles capricharam. Minha sopa preferida!” Sr. Rodrigues comeu e depois se dirigiu para sala de meditação. Queria fazer mais prática antes de dormir. Queria aproveitar cada minuto ali.

Continua... 






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Notas - Saiba mais sobre: 


Foto do Esquilo com a flor: Dick Van Duijn (fotógrafo holandês)


(3) Libélula: Sobre Libélula

(4) Simbologia da Libélula: Clique aqui

(5) Referência a uma passagem da Bíblia em Mateus 6:28: “E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;” (Fonte: Bíblia Online)

(*) A contemplação sobre impermanência é uma prática importante no Budismo, mas que serve para qualquer pessoa fazer independente de qual religião seja, pois a impermanência é um fenômeno natural da vida, relativa ao tempo.

No meu Meditações há um exercício que você pode utilizar.