Episódio 1: Ana em Bafalândia



De repente Ana acordou com uma sensação de ter dormido por muito tempo, durante dias e mais dias. Ela estava dentro de uma linda tenda aberta nas laterais, mas que tinha cortinas brancas de voal que balançavam com o vento. No chão havia um tablado de madeira corrida que cobria toda a área da tenda com um colchão de casal no centro, no qual ela estava deitada. As roupas de cama eram todas brancas com bordados do tipo da vovó e havia muitas almofadas coloridas com detalhes. Uma manta fina e aconchegante de lã na cor azul turquesa a cobria e no teto podia-se ver um arranjo de cristais furta-cor pendurado. Era dia e filetes da luz do sol entravam pelas brechas das cortinas. Ana se sentia profundamente relaxada, num estado ainda de despertar. 

Depois de alguns minutos ali deitada, meio que dormindo, meio que acordada, ela resolveu se levantar, estava se sentindo muito viva, mas ao mesmo tempo com a mente um pouco nublada quanto aos acontecimentos. Não tinha ideia de onde estava e como veio parar ali. Então, olhando para si mesma, Ana percebeu que estava vestida com um vestido que sua mãe lhe deu de aniversário, mas que nunca tinha usado (de birra mesmo). Ele era azul marinho com flores amarelas minúsculas, nada seu estilo, mas sua mãe insistia em comprar roupas para ela, não aturava seu estilo despojado de se vestir do tipo calça jeans, camiseta branca e tênis. “Será que foi mamãe que me raptou pra cá?”, pensou Ana ainda meio confusa, lembrando-se da última discussão que teve com sua mãe sobre conhecer o seu pai. 

Bem, Ana tinha que resolver esse mistério. Então, ela saiu da tenda. E assim que saiu, ficou paralisada por alguns instantes: “Meu Deus que lugar é este?!!” Ana estava diante de um jardim circular, cercado por uma floresta, com montanhas nevadas ao fundo. A tenda ficava numa das bordas do jardim, numa elevação. Havia vários canteiros com flores, bancos e no meio havia uma pequena fonte natural de pedras, da qual saia um filete de água cristalina que corria depressa como um pequenino riacho para a floresta. Podiam-se ver muitas borboletas de cores variadas e inusitadas, vários insetos voando serelepes e sons de pássaros cantado. De repente, um vento passou fazendo um redemoinho de flores do campo. E assim como surgiu, se foi. “Será que eu morri? Não estou no Brasil. Não há montanhas com neves no Brasil!” Ana ficou meio hipnotizada pelo lugar por alguns minutos, que nem percebeu elas chegarem. 

_ Bonito, não é? – disse uma delas, com uma voz meio estranha (como de desenho animado numa tonalidade fina). 

Ana tomou um susto. Olhou ao redor e não viu ninguém. 

_ Aqui embaixo mocinha! 

Então, quando Ana olhou para baixo viu as cinco de uma vez, deu um pulo e saiu correndo que nem uma louca gritando tanto que teve a impressão que todos os pássaros pararam de cantar e os insetos de voar. Correndo e correndo bem rápido para perto da fonte, ela chegou lá bem ofegante e começou a beber da água, como se a água da fonte fosse acabar. 

Depois que se saciou da água fresca, Ana se sentou no chão e começou a fantasiar que talvez estivesse desidratada vendo, portanto, miragens (como pessoas no deserto depois de muito tempo sem beber água, sabe?!). Ainda pensativa percebeu um barulho vindo da floresta e repentinamente viu uma pessoa surgir de lá: era uma mulher morena, com cabelos negros ondulados e bem compridos. Ela tinha uma guirlanda de flores na cabeça, vestia uma túnica indiana branca com detalhes dourados na gola e nas mangas curtas, e que tinha um desenho de um dragão azul celeste que começava da base até o coração. Seu semblante era calmo, com um leve sorriso no rosto. 

Ao se aproximar de Ana, a mulher se abaixou e a olhou face a face. Ela tinha um olhar penetrante como se pudesse ver além. Mas isso não soou ameaçador para Ana, na verdade ela sentiu uma energia tão suave e amorosa que nunca tinha sentindo antes. Era algo estranhamente familiar. 

_ Seja bem vinda Ana! Ouvi que você tinha acordado – a mulher sorriu enquanto a olhava com carinho. 

Ana ficou sem palavras por alguns instantes e um pouco envergonhada, pois se lembrou de sua recente gritaria. 

_ Desculpa pelo grito, mas é que eu me assustei, achei que tinha visto umas coisas meio estranhas, mas acho que ainda estava dormindo ou meio desidratada... Não sei ao certo (Ana deu uma risadinha meio sem graça). E você quem é? E onde estou? Eu estou morta? 

_ Meu nome é Sitara. Sou uma amiga de longa data, desde um princípio sem princípio, vamos dizer assim. Quanto a esse lugar mágico, costumo chamar de Bafalândia, em homenagem a um amigo (1). Achei engraçado esse nome e resolvi usar quando este santuário foi manifestado, pois representava de alguma maneira o espírito deste lugar, o que as pessoas precisavam aprender quando viessem aqui passar uma temporada, como você agora. Portanto, você não está morta, querida Ana, veio apenas passar um tempo enquanto seu corpo se recompõe. Tipo uma colônia de férias, entende? E imagino que as coisas estranhas que você mencionou ter visto sejam as Irmãs Terra, não é mesmo?!! 

_ Ok Sitara. Vamos por partes, por favor? Já que não estou morta, estou sonhando? É um sonho meio estranho, não é? E aquelas coisas... 

E antes que continuasse a falar, Ana viu que elas, as Irmãs Terra, estavam se aproximando bem saltitantes. Ficou um pouco paralisada olhando para elas vindo em sua direção. 

_ Seja gentil com elas, Ana, são suas anfitriãs e protetoras dos moradores de Bafalândia – disse Sitara. 

_ Mas elas são formigas gigantes que falam e ainda por cima usam vestidos coloridos!!! 

_ Sim, eu estou vendo! Gostou do modelito delas?! Não são lindas?! Cada uma representando as cinco cores das cinco famílias. 

Ana olhou para Sitara e viu que ela estava olhando para as Irmãs Terra com tanto amor e zelo que ficou impressionada. As irmãs eram formigas guardiãs, mas não se pareciam ao todo com uma formiga. Elas tinham uma tonalidade de marrom claro meio dourado em seu corpo, que parecia ser de uma menina magrela de 10 anos, tinham a cabeça de formiga e usavam vestidos, do tipo tubinho dos anos 60, cada um de uma cor. Eram responsáveis em cuidar de todos os moradores de Bafalândia, assim como dos peregrinos que visitavam o lugar. 

_ É muita informação pra mim. Desculpa, estou meio tonta e confusa. 

_ Beba um pouco de água, querida. Esta fonte é medicinal da Terra de Sukavati. 

_ Mas eu achei que fosse uma nascente aqui. 

_ Sim. Ela nasce lá e brota aqui. 

Ana não quis entender o raciocínio de Sitara, então começou a beber mais água enquanto as Irmãs Terra se aproximavam. 

_ Você fugiu da gente!! – disse a irmã formiga gigante de vestido branco. 

_ Desculpa, me assustei. Nunca tinha visto formigas do seu tamanho que falam. 

_ Ah, então já viu de tamanho menor? 

Ana riu se descontraindo um pouco. A formiga de vestido branco, com uma cara serelepe, começou a se apresentar e às suas irmãs. 

_ Eu sou Flor do Centro, de vestido branco. Esta é minha irmã Flor do Leste, de vestido azul; essa é a Flor do Sul, de vestido amarelo, aqui está a Flor do Oeste, de vestido vermelho e por último a Flor do Norte, de vestido verde. Entendeu?!! 

Ana balançou a cabeça meio boba dizendo que sim. Sitara riu achando graça de sua reação, enquanto Flor do Centro continuava a falar. 

_ Nós somos as protetoras de Bafalândia, e cada uma de nós cuida de uma direção, por isso usamos cores diferentes, para vocês peregrinos não se confundirem. Aqui temos uma regra básica: não se pode matar nenhum ser. Como você é uma convidada humana vamos te ajudar trazendo frutas para você comer e pode beber à vontade da água de Sukavati, ela nasce lá e brota aqui pela bondade de Sukavati. Então, vai te fazer bem beber dela. (Flor do Centro fez uma carinha serelepe enquanto observava Ana). Você também pode andar livremente pelo jardim, pela nossa pequena floresta e pelo campo de flores que compõem a área da mandala de Bafalândia. Não se pode ir além da mandala sem permissão e acompanhamento, muito menos nas montanhas. Os moradores de lá não são muito simpáticos. Alguma pergunta?! 

Ana balançou a cabeça de forma negativa e ainda meio boba. Então, as Irmãs Terra se despediram e saíram caminhando todas juntas para o lado norte em direção à tenda. 

_ Já está quase entardecendo, elas devem ir preparar sua refeição de frutas. 

_ Frutas? Sério? Eu só vou comer frutas? Caracas!! (Ana já estava se soltando e deixando seu lado reclamão vir à tona). 

_ É o que temos aqui, querida! 

Ana ficou intrigada olhando para Sitara e pensando: “Ela não poderia ter construído uma casa com cozinha? Se aqui tem formigas gigantes, não podia ter qualquer coisa como comida, do tipo um sanduíche do Mc Donald’s? Ou mesmo uma entrega expressa? Ou uma máquina de fazer sanduiche futurista?” Ana ficou perdida por algum tempo em seus pensamentos, enquanto Sitara a observava. Então... 

_ Mas Sitara, por que só frutas? Já que estou sonhando, não poderia ter outras comidas? 

_ Porque você está sonhando, mas seu sonho não é apenas seu. Ele é compartilhado com os seres daqui, então segue as regras daqui. E todos os humanos que vem aqui, seguem as regras daqui. 

_ E por que no sonho daqui só se come frutas? 

_ No sonho daqui você só como frutas porque é o que tem para você. Há também algumas ervas e plantas, se você quiser. Os moradores daqui comem cada um o que lhe é natural. 

Então, Ana percebeu que não tinha visto nenhuma pessoa humana, a não ser ela e supostamente Sitara, que tinha uma forma humana, mas sabe lá. 

_ Aqui é um lugar para animais, então? 

_ Aqui é um lugar que tem animais e outros seres, como as Irmãs Terra. Mas não se preocupe em saber tudo agora sobre Bafalândia. Você terá tempo. 

_ Como sim?! O meu sonho vai ser longo?!! (Ana fez uma careta). 

_ Sim, beeem longo. E não se preocupe quanto a isso, o tempo aqui é diferente do tempo de seu mundo. Então, relaxe. E lembre-se das regras. Até amanhã, está bem querida? 

_ Eu vou ficar aqui sozinha? 

_ Sozinha? 

E Sitara então se levantou e caminhou na direção de onde tinha saído. O sol já estava se pondo e Ana viu que a tenda estava iluminada. Então, se dirigiu até lá e quando chegou viu as Irmãs Terra terminando de ajeitar uma bandeja com frutas e flores decorativas. “Eu devo estar ficando louca, mas se tudo é um sonho, porque não?”, pensou Ana. 

Flor do Norte se dirigiu a ela e disse: 

_ Ana, aqui está sua refeição. Quando terminar pode colocar a bandeja no chão perto da borda de cá (a esquerda de quem entra na tenda), está bem? E quando for dormir, basta bater as mãos assim (e deu duas palmas como demonstração) e a luz apagou. Para acender as luzes é só bater de novo as mãos (e deu mais duas palmas e as luzes ascenderam). 

Ana ficou olhando para o teto intrigada tentando descobrir de onde vinha a luz, já que não tinha luminária em lugar nenhum. Era como se o teto fosse a luz. Algo incrível. Mas mesmo vendo algo incrível assim, sua mente ainda estava presa no pensamento sobre comida: “Se neste lugar tem luz mágica, porque não tem um sanduíche bem suculento com bacon?” Começou a ficar meio irritada olhando para aquela bandeja de frutas, e as Irmãs Terra percebendo isso foram saindo de fininho conversando entre si num dialeto diferente. Flor do Centro antes de sair deu um risinho dizendo: 

_ Durma bem, pois amanhã começaremos!! – E saiu furtivamente. 

Ana começou a ter uma crise de ansiedade olhando para as frutas, enquanto ao mesmo tempo se lembrava das regras, não era muito boa em seguir regras, adorava contrariar as pessoas, apesar de se considerar uma moça bem educada, principalmente com as pessoas mais idosas. Então, ela começou a pensar: “Será que depois das montanhas tem como escapar? Ahhh, Ana sua burra, se você está sonhando não vai adiantar, né? Que droga!! ... Mas já que é um sonho será que tem algum perigo de verdade? (Ana parou por alguns instantes). Talvez seja melhor seguir as regras por enquanto. Ahhh que fome!! Melhor eu comer logo essas frutas. Queria tanto um Mc Donald’s!! Até a sopinha da Sôsô, eu topava agora!” (Sôsô=Soraia, empregada da casa de sua mãe). 

As frutas estavam tão saborosas, que Ana foi comendo de maneira tão afoita, que só se deu conta depois que as formigas haviam cortado o mamão, o melão e a laranja em pedacinhos, enquanto as frutas vermelhas deixaram inteiras. Por um lado, ela ficou maravilhada com o trabalho das irmãs, por outro ficou preocupada imaginando aquelas “coisinhas” com algo cortante nas mãos. Depois de satisfeita, Ana colocou a bandeja no lugar combinado, já estava mais bem humorada e ficou brincando de bater palmas algumas vezes, ascendendo e apagando as luzes, até que capotou no colchão, dormindo profundamente. 

No dia seguinte... 

O sol estava nascendo quando Ana acordou ouvindo o canto dos pássaros. Nunca tinha acordado tão cedo. Para sua surpresa, a bandeja de frutas estava refeita, dessa vez tinha mamão, manga e amoras, com algumas folhinhas de hortelã e uma taça talhada de cristal com água. “Caracas, aqui tem copo chique e não tem comida!”, pensou isso enquanto comia das frutas e bebia da água. Sua mente começou a entrar num luping de reclamações e ruminações, quando de repente começou a ouvir o som de um mosquito que veio perturbá-la. “Não acredito que aqui tem mosquito! Que absurdo!!! Como pode?! Será que tem barata também? Não acredito que um lugar lindo como esse tem uma coisinha barulhenta e repugnante como essa, que só sabe sugar nosso sangue!! (E enquanto mais reclamava, mas o mosquito zoava). 

Então, de maneira súbita e raivosa, quando o mosquito passou perto dela, Ana bateu as suas mãos esmagando o mosquito entre elas. Só depois se lembrou da regra de não matar ninguém. “Mas mosquito não é alguém, ninguém vai notar, não é?”, ficou pensando enquanto limpava com água os restos mortais do mosquito em suas mãos. 

Meio envergonhada e pensativa, Ana saiu da tenda e foi dar uma volta. Para sua surpresa não estava ouvindo nenhum som de insetos e pássaros, também não avistava nenhum deles, nem borboletas voando volitantes. Tudo estava muito silencioso. Ana se sentou num banco e ficou esperando. Tinha quebrado uma regra importante de não matar. Mas não se arrependia. Não conseguia imaginar porque um mosquito era importante a ponto do lugar ficar mudo. Então, ouviu um som vindo da floresta, era Sitara. Dessa vez, ela estava vestida com uma calça e top estilo indiano na cor azul marinho, com detalhes em prata. O desenho de um dragão na cor preta corria toda parte da frente de uma das pernas da calça. Ela estava séria, mas sem aparentar estar com raiva. 

_ Bom dia, menina Ana! 

_ Bom dia, Sitara! 

_ Pelo visto você quebrou uma das regras, não foi? 

_ Era um mosquito, qual o problema? E por que um lugar lindo como esse tem mosquito? – Ana falou com um tom defensivo e quase agressivo. 

_ Porque aqui não excluímos nenhum ser da categoria dos animais e seus protetores, não importa a aparência que eles tenham. Entende? São seres vivos. E se você olhar ao redor, tudo aqui é uma exuberância da vida! Olhe em volta, Ana!! Tudo aqui é balanceado, flui como a água cristalina da fonte de Sukavati, que por causa de sua compaixão nasce lá, brota aqui e em todo lugar. Mas não quero que você entenda isso só porque estou falando, ou por educação peça desculpas ou siga as regras. Há uma razão para você estar aqui. E não é todo humano que tem esse privilégio. Apesar da água cristalina de Sukavati está disponível para quem quiser. 

_ O mosquito estava me perturbando e eu já tinha acordado meio irritada com vontade de comer algo diferente que não frutas. E quando mais eu me irritava, mais o danado do mosquito me perturbava. 

_ Eu entendo Ana! Mas não lhe passou pela cabeça que ele estava irritado com os seus pensamentos? Que ele estava refletindo você mesma? 

_ Não, não pensei. Não é algo que alguém pensaria, não é? 

_ Por isso vocês humanos criam tantos obstáculos e destruição, por não se atentarem aos seus pensamentos e sentimentos. Por não perceberem que tudo está interconectado, que tudo é interdependente. 

Ana ficou quieta por alguns instantes pensativa, mas não conseguia ainda captar o que isso de fato significava. 

_ Como eu lhe disse, as pessoas vem aqui para aprender lições. E o ser humano realmente só aprende quando se coloca no lugar do outro, quando para de pensar apenas em si e busca entender o outro na perspectiva dele, mesmo que esse outro seja um ser “desprezível” como um mosquito. É assim que a compaixão vai despertando, entende? 

E antes mesmo de Ana abrir a boca para retrucar, Sitara fez um gesto com a mão, girando-a no ar no sentido anti-horário e estalando os dedos. Então, naquele exato momento Ana se transformou num mosquito. Mas diferente de um mosquito, ela continuava com sua mente de humana, contudo sem conseguir falar, só pensar. Começou, então, a voar pra lá e pra cá, fazendo um zumbido daqueles bem irritantes (znhiiinnnn). Ao mesmo tempo, os pássaros voltaram a cantar, os insetos a voar serelepes e as borboletas a exibirem volitantes suas cores mais belas. 

Enquanto isso, Flor do Centro se aproximou trazendo os restos mortais do mosquito que Ana jogou fora. 

_ Hummm, ela continua barulhenta!!! 

_ Flor do Centro! 

_ Desculpa Sitara. 

Ana-mosquito se aproximou e com raiva começou a rodopiar em volta da Flor do Centro, que nem se abalou, apenas se dirigiu a Sitara lhe entregando o mosquito. 

_ Só consegui encontrar estes restos dele. 

_ É o suficiente!! Deixe-me ver... Vou leva-lo comigo e você e suas irmãs não precisam se preocupar hoje com a bandeja de frutas para Ana. 

_ Pode deixar, minha senhora! 

Ana-mosquito ouvindo isso quis dizer que queria frutas, mas não conseguiu falar nada, pois só saía zumbido de mosquito (znhiiinnnn). Tentou se aproximar do ouvido de Sitara na esperança de que esta a entendesse, quando ouviu: 

_ Ana, cada um aqui come o que lhe é natural! - E saiu com os restos mortais do outro mosquito nas mãos. 

_ Znhiiinnnn (E o que é natural de um mosquito?) 

_ No seu caso, que é um mosquito fêmea, sangue.

Ana-mosquito se assustou: “Znhiiinnnn . Nossa é isso mesmo!!!... Eco!! Mas quem eu vou picar para beber sangue? Eco, que nojo!! Como posso pensar isso?!... Hummm que fome!” 

Ana-mosquito ficou voando e voando meio desorientada tentando encontrar alguma fonte de comida. De repente, ela percebeu que vinham em sua direção outros insetos e como eles eram bem grandes do ponto de vista dela agora. “Os seres daqui comem o que lhe é natural, então devo ser a comida de alguém, né? (pensou meio assustada). Não quero ser comida de ninguém!! Znhiiinnnn. Sitara já entendi, por favor me deixa voltar a ser humana!! Znhiiinnnn”. E continuou a voar e voar se lastimando até que se deu conta como era gostoso voar, como podia brincar com o vento. Então, resolveu se aventurar na floresta, voando com cuidado, para não encontrar nenhum sapo. 

Depois de um tempo na floresta, da parte leste, de onde Sitara costumava sair, Ana-mosquito avistou uma pequena tenda como a dela. Quando entrou, viu Sitara sentada no chão num tapete redondo com desenhos bem coloridos, como uma mandala. Ela estava fazendo umas preces, cantando, com o mosquito morto em uma de suas mãos. Ana-mosquito se instalou numa parte da tenda e começou a observar tudo. A voz de Sitara era tão suave que lhe trazia uma sensação muito boa de paz e alegria. Até sua fome cessou. 

Absorvida pela melodia, Ana-mosquito testemunhou algo surpreendente: Sitara assoprou em direção ao mosquito e uma luz o envolve circulando-o no sentido anti-horário. Ela entoou o que parecia ser um mantra e de repente o mosquito reviveu e saiu voando serelepe. Ele deu várias voltas em volta de Sitara, parecendo que estava agradecendo (foi a sensação que Ana-mosquito teve), ao mesmo tempo em que parecia que estava fazendo uma homenagem à ela. Como mosquito, Ana-mosquito podia entender o outro mosquito. E isso lhe pareceu muito estranho. Depois que circundou Sitara, o mosquito saiu em direção à floresta, voando e zumbinando feliz. 

Ana-mosquito então começou a chorar (Znhiiinnnn). E Sitara olhou em sua direção dizendo: 

_ Ahh você está aí Ana?!! (como se ela não soubesse). 

_ Znhiiinnnn (Eu vi o que você fez com o mosquito e eu consegui sentir um pouco o que ele estava sentindo depois que ele reviveu). 

_ Até os mosquitos querem ser felizes na perspectiva deles, não é querida?!! 

_ Znhiiinnnn (Posso ficar aqui com você? Me sinto mais segura. Tenho medo que um sapo me coma!). 

_ Sim, hoje você pode! – riu Sitara - Você está com fome? 

_ Znhiiinnnn (Agora que você me lembrou, estou!) 

_ Venha até aqui – Sitara estendeu sua mão. 

Ana-mosquito se aproximou e pousou na mão de Sitara. 

_ Pode me picar! 

Ana-mosquito “arregalou” os olhos. 

_ Znhiiinnnn (Como assim? Vou chupar seu sangue?!!!) 

_Isso mesmo. 

_ Znhiiinnnn (Não consigoooo.) 

_Consegue sim. 

Ana-mosquito ficou meio sem graça, mas resolveu picar Sitara. À medida que foi chupando o sangue de Sitara, foi se sentindo muito bem, com uma sensação de estar comendo um hambúrguer bem suculento, seguida de uma saciedade repentina. 

_ Znhiiinnnn (Que delícia! Tão quentinho! Muito obrigada. Estou bem agora!) 

_ Então, pode se instalar aonde quiser na tenda. E descanse um pouco. 

_ Znhiiinnnn (Aqui não tem lagartixa?) 

_ Elas não precisam de você Ana – respondeu Sitara rindo. 

Ana-mosquito não entendeu, mas se acomodou num canto da tenda e ficou observando Sitara se sentar no chão e entrar em estado de meditação. 

E como se o resto do dia passasse bem rápido e a noite chegasse repentinamente, dando margem para que um novo dia surgisse, Ana acordou em sua tenda na forma humana. 

Continua... 


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Notas: 

(1) Amigo: faz referência na verdade à duas pessoas, o meu amigo MT que apareceu em sonho falando sobre o livro “Os Moradores de Bafalândia”, e o criador do game Bafá Bafá, Dr. R. Garry Shirts (citado na apresentação do projeto). 

(2) Fonte: https://www.ddribeira.com.br/onde-os-mosquitos-vivem-e-o-que-eles-comem/

(*) Sitara: significa Flor da Manhã em Hindi. Faz referência também à Sítara ou Sitara, um instrumento musical indiano: